Para entender a escrita desta obra famosa, é preciso visitar a vida do autor que viveu no final do período czarista e os primeiros anos e últimos anos do Czar Alexandre II. Ele viveu aquele período de surgimento do Socialismo, do anarquismo e da mudança de servos para cidadão, da melhora na condição de vida de um povo, que estava entre a modernização e a ruralidade, o povo russo, quando os pensadores ainda avaliavam ideologias, seus respaldos científicos, suas visões de desconstrução daquela sociedade para uma supostamente melhor e mais moderna, tanto que cada um pode encontrar ideias nas obras do autor sobre o socialismo, anarquismo a crise imperial, até aqui falou-me de seu contexto histórico, mas vamos ao que é o motivo desta postagem, a literatura de Dostoiévsky. É sempre capaz de fazer o interlocutor se questionar sobre sua moralidade e mentalidade, pauta-se em observações mentais e questiona o que é bom e o que é o mal, mas, além disso, tem outra característica, aquela que prevalece nos personagens principais da obra que é um processo que você leitor mais atento pode perceber, o autor meche com você e faz você pensar sobre o que você faria em tais situações, toca também no conceito de justiça e misericórdia, quase que tentando justificar o ocorrido, que pode ser uma traição, um assassinato ou uma forma de amor quase impossível, induzindo você a repensar muitas construções mentais e sólidas do próprio caráter.
Após esse pequeno esboço biográfico, vamos a vida e personalidade de Raskólnikov, o principal personagem do romance escrito 1867, 14 anos antes da morte do autor. Seu Rodion Raskólnikov pode ser visto como "ex-estudante, ambicioso, facínora, intenso e que age por impulso; um "homem do subsolo" - ambos se consideram superiores ao resto da humanidade e anseiam pelo poder e glória", (trecho tirado 14 do prefácio da obra). Sim, não espere heróis, não espere bondade e não espere redenção, mas espere. Dostoiévsky não escreve para isso, tanto que o primeiro erro que cometi ao ler a obra, acostumado aos romances ocidentais, não tinha arcabouço teórico que adquiri para julgar quem era Rodion, muitas vezes me deparei com pena dele, sua pobreza, abandono dos seus ideais da juventude e seguindo em direção do erro e da cobiça, mas sentir um pouco de raiva por ele parecer um jovem que poderia não fazer o mal e poderia ter lutado mais contra a sociedade e sua natureza pensativa e melancólica.Todavia, é melhor escutar a opinião de Dmitri Pissarev, jornalista que escreveu um ensaio sobre a obra e aponta quem é Rodion:
"Está numa conjuntura em que todas as forças positivas do indivíduo se voltam conta ele próprio, envolvendo-o no baldio conflito com a sociedade". Ou seja, é o sujeito cansado, que avalia a sociedade onde vive e se revolta contra a realidade imposta a ele, sua situação financeira é tão degradante que sua mãe vive de empréstimos para sustentar o filho em São Petersburgo, onde ele fazia faculdade de Direito, vive também de trabalhos como tradutor e escritor, possui uma noiva que acaba morrendo de Tifo, essa falta de esperança faz se sentir abandonado pelo destino e começa a penhorar os bens que lhe resta. Pense só, caro leitor, o que é para um jovem do interior sonhar com uma faculdade na capital e viver uma vida lastimável e miserável, todas essas situações levam muitas pessoas ao desespero e é nesta hora que a moralidade perde espaço no coração de muitos. Essa situação vai comprometer todos os ideais e sonhos de Rodion Raskólnikov.
Então, o jovem e agora assassino mente a si mesmo, passa por interrogatórios e consegue se desvencilhar de todos, tornando o caso ainda mais mirabolante para os investigador de São Petersburgo. Pense bem, já que, quando você é culpado busca esconder as suas ações e pormenoriza seus atos, sua consciência o esmaga e tenta a todo custo construir uma versão menos culpada que amenize a realidade, mas que, por hora ou outra o coloca em um turbilhão de sentimentos, dores, falta de paz, sendo necessário construir um simulacro de si.
Apesar de tudo, a redenção de Rodion Raskólnikov vem de uma forma ou de outra, uma mulher trará a ele, um amor impensável o fará confessar e aceitar que é culpado, cumprindo sua pena pagando por seus erros e após esse vendaval de ações: mentiras, desconstruções do simulacro, melhorando suas vidas mentalmente, ambos pareciam perdidos, todavia, foi o amor e a esperança que salvaram a amada de Rodion, Sonya Marmeladov, a ex-prostituta, do qual Rodion tem grande apreço e amor, vendo-o como pura e não hipócrita, que foi levada a queda pelas situações da vida.
Dessa forma, a literatura de Dostoiévsky que cria enredos de personagens impossíveis que alcançam a misericórdia de Deus e a redenção, termina assim a obra; quando você a ler ou seja leu vai ver que Sonya e Rodion parecem impossíveis de serem redimidos, todavia o autor os redimirá por mais impossíveis que sejam suas vidas, confirma-me tal objetivo no término da leitura, veja:
